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Hipertensão

Hipertensão   A má notícia  Direto da cardiologista  É que sou hipertenso Perigo perigo perigo O negócio tá tenso Treze por nove Quatorze por dez Quinze por onze A boa notícia  É que tá provado de vez Que tenho um coração  Perigo perigo perigo Ele tá trabalhando demais Treze por nove Quatorze por dez Quinze por onze É Pressat É Losartana É disparate É sem sintoma E assim essa pressão  Que aperta e esgana Maltrata meu coração  Que sangra e não reclama

Era uma poesia

Era uma poesia Era uma poesia De lamento Um blues de dor  E sofrimento Era uma poesia  De sofrência  Um brega sem rancor  Apenas um mar em tormenta Era uma poesia De melancolia  E não um samba de livramento  Ou sentimento q ue alivia Era uma poesia E jazz não é mais Ficou apenas o Talvez Que passou batido E que agora bate no coração  Que parou de pulsar Era uma poesia E jaz, não é mais Agora são versos rasgados De um poeta em retalhos Poesia que morreu e foi pra lata  Foi de morte morrida e de morte matada  Era uma poesia  E já não é mais  Mas no fundo, bem no fundo  Talvez ainda seja  Pois é assim que se faz Poesia 

Queda livre

Queda livre Nada vicia mais que o sofrimento  Nada sacia mais do que a tristeza  Que em momentos de frio ao relento Não decepcio nam e marcam presença  Nada chega mais sem aviso Que tristeza e sofrimento Pode até ser o dia mais lindo Daqueles com céu azul de brigadeiro Em um dia de solidão de retaguarda Você nunca vai saber a diferença  Entre o calor da cama em uma manhã ensolarada E do frio do piso do banheiro em que vomita Depois de algum tempo, em segredo  Vai desejar mais do que por gosto Que venha o desconforto, que te sirva absinto E te machuque de novo E em tardes fugidias como essa Em que vivi a vida e não um fado Vem a vontade de pedir para que algo me impeça  De admirar a beleza só na queda livre e do estrago                           Wilson Borges  

Ponto de partida

Pronto de partida   Sua ausência é dor  Que me dói  E continua a doer  E continua a doar  Poesia Poesia Que me alivia  Depois retalha Dói tanto e todo dia Que paralisa  E a poesia Que sangra e também coça  Que é tsunami e também poça  Me lacera no outro dia De fossa Esta minha ausência  Dentro de mim  Que te dói e não te doa nada Que te rói e depois cala Se esgota  E essa dor, essa ferida  Essa poesia de agonia  Me fazem lembrar  Que a angústia  É nosso pronto  De partida                 Wilson Borges  

Sem receita

Sem receita  Passa o dia e passa o mês  E passa dois e passa três  Mas se amplia e passa quatro  Seria Santa Rita No interior de São Paulo  O tempo não avança e nem recua Não bate e nem desperta Esse meu relógio sem ponteiro E essa volta que não fecha Um coração  Dois corações  Mas se caso fossem três ou quatro Seria Minas Gerais Ou café pequeno mal coado Porém é só minha dor seca Dentro de uma garrafa boiando no oceano  Com pedido de salvação na sarjeta  E de tarja preta sem receita 

Chuva de verão

Chuva de verão    Saí sem guarda-chuva Pois agora a pouco estava sol Mas a Defesa Civil não me defendeu E agora pinga Pinga  E pinga Chove lá fora  Aqui dentro também  E agora estou sem certeza ou cerveja E agora pinga Pinga E pinga Melhor guardar o celular Pois senão posso perder A  poesia que fique pra lá E agora pinga Pinga  E pinga O celular pode pifar E eu também  Poderia chover granizo  Mas só pinga Pinga E pinga Agora eu me pergunto  Onde será que está seu coração? Poderia me dar uma resposta seca Mas só pinga Pinga E pinga                        Wilson Borges  

Interlúdio em dor maior

Interlúdio em dor maior O nosso Romance que se perdeu Começou com um Prefácio  Mas o Índice era apenas imaginário  Em nossa Novela, eternamente bela A Introdução nunca passou De um Prelúdio do fim Em nosso Conto, apenas um ponto: As Considerações Finais Chegaram cedo e tarde demais Em nossa Canção  Na busca de uma sílaba tônica  Acabamos em uma síncope morna Em nosso Drama Histórico A conjuntura de lama  Nos sujou de cândida  E em nossa Poesia Nesse eterno Teatro de Vanguarda  O Posfácio veio rápido demais  Mas difícil mesmo de engolir É essa aguardente de lágrimas  Que alaga Mas difícil mesmo de suportar  É essa dor crônica que me aperta Sem remédio  Mas difícil mesmo de viver É com essa vontade de ir embora Sem partir                              Wilson Borges